Retrato do artista quando nu

Os críticos ferrenhos da futilidade e desrespeito dos tablóides e demais papéis amarronzados, muitas vezes (e, para pagar a multa por generalização simplista, entre eles me incluo), também são consumidores de notas de rodapé biográficas que desnudam autores discretos e, fora dos livros, silenciosos.
À vezes nem tão silenciosos, é verdade. Muitos artistas, coerentes com a missão de serem artistas e, portanto, aparecer, brilhar, gritar, utilizam cacoetes, a má fama, o factóide, até o corpo (!) para levar a obra ao mundo e, tendo isto como ajuda, tentar eterniza-la e eternizar-se. Sempre me lembro de Genet, e as suas histórias mentirosas, sua crueldade duvidosa, e de sua genialidade, carregando uma obra que falou desse mundo imaginário do ladrão. Um autor brasileiro que, descobri sem querer, segundo fonte segura, por mais que se anuncie proletário, é um Czar em pele de bolchevique. Outro acolá forja a antipatia. Outro ali, a simpatia.
Há outros que, não por cálculo, mas por natureza, são chamativos ou até espalhafatosos: os suicidas (especialmente os teatrais, como Mishima), aqueles que servem de bandeira (gays, nazistas, umbadistas, negros ou gagos), ou simplesmente discretos demais e misantropos. Aparecem estes quase ou totalmente de modo involuntário. No caso de Salman Rushdie, por exemplo, que depois de ter escrito o seu Versículos Satânicos, foi condenado pelo falecido Aiatolá Khomeini à morte, a ser executada por todo verdadeiro fiel do Islã, enfim, como poderia este curioso fato não ser um meio divulgador de sua obra e de sua personalidade? Como não conhecer Manuel Bandeira como o mais resistente dos tuberculosos e por sua vida “que poderia ter sido e que não foi”?
Fotogênico Picasso. Mais fotos dele e mais
outras matérias sobre arte aqui.
Pensei no assunto depois de ter descoberto o filme Mystere Picasso (completo no Youtube). A idéia era filmar Picasso pintando. A primeira cena do filme é o pintor caminhando de bermuda e camiseta regata até duas pinturas suas, em meio a uma fala que comenta acerca do desejo de se descobrir o que o artista pensa enquanto cria, conhecer “o mecanismo secreto que guia o artista na sua perigosa aventura”. Na arte da pintura, diferente da literatura ou da música, seria mais fácil de se verificar este processo criativo, apenas questão de ver passo a passo o movimento do pincel, o que de fato o filme mostra. É, entretanto, na fantasia que o filme se apóia. A intimidade com que Picasso se apresenta parece, para mim, algo como encenação e, além disso, o cineasta espalhou o mito de que, após as filmagens, as telas seriam queimadas (o que, de fato, não ocorreu).
O filme que, em sua efemeridade torna o instante criativo ainda mais precário e fugidio, e ao mesmo tempo tenta arquiva-lo, é, acredito, metáfora deste processo de desnudar o autor. Conhecer o artista nu é, provavelmente, parte da atividade do apreciador de compreender a obra, o que o leva a um ambiente normalmente estranho, encantador ao ponto de lá prende-lo e cativa-lo, mas parcial, no sentido de que apenas pode vislumbrar a idéia fundamental que iluminou um momento da vida do autor e que o cristalizou naquele objeto de reflexão.
que seu amigo Max Brod queimasse toda sua obra, mas
só algumas delas. Inclusive, que se desfizesse das cartas,
o que Brod, prontamente, desobedeceu.